A Solidão dos Idosos Em Portugal
O retrato do marido, que morreu há 23 anos, na mesinha entre o sofá e a porta da sala, é a maior companhia de Maria da Conceição Cordeiro. Porque a memória do passado também ajuda a distrair a solidão. A casa empoleirada em Alfama tem vista larga para o Tejo e dentro das quatro paredes sobra o espaço que foi partilhado durante quase uma vida. ‘Cordeirinha', como é conhecida nas vielas apertadas do bairro de Lisboa, entra nas estatísticas dos 400 mil idosos que vivem sozinhos no País - segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. Na maioria, mulheres, que na batalha da longevidade sobrevivem aos maridos. São, por isso, elas que contam a solidão. Maria da Conceição casou há 70 anos no Dia das Mentiras, mas nunca duvidou da escolha. "Era uma pessoa fora de série, mimava-me muito, por isso eu nunca mais quis ninguém, mas deixou-me a casa vazia quando partiu, sinto-me muito só, faltam-me pessoas com quem falar e desabafar." O único filho tem 68 anos e mora numa ponta distante da cidade. "Está quase cego e além disso tem os sogros a cargo, por isso vejo-o pouco." Não há queixume na voz, só tristeza. Como raras vezes vai à rua - tem 85 degraus a separá-la das gentes de Alfama, que lhe pesam nas pernas e complicam a asma -, só tem contacto com a assistente social da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e com uma voluntária que a leva às consultas médicas. A morte do único neto também aumentou a solidão. "Estava sempre a telefonar-me e trazia-me água e leite, coisas pesadas. Perguntava sempre: ‘Avozinha, tu nunca vais ser velha pois não?'" Mas perdeu o controlo do carro aos 28 anos e partiu antes da avó, de 89 anos.
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